sábado, 17 de maio de 2008

Globalização, Mulheres e Utopia: O Exemplo de Marina Silva [1]

Bernadete Beserra[2]

Encontrei a senadora Marina Silva, pela primeira vez, em abril de 2000, numa palestra na Universidade Estadual da Califórnia, campus de Los Angeles (CALSTATELA). Marina me impressionou pelo fato de estar falando de questões seríssimas a respeito do futuro do planeta com a mesma naturalidade e desenvoltura com que preparo café na minha cozinha.
Aquela forma especial de lidar com o poder me fez lembrar do discurso de Sinéad O’Connor na abertura do CD Universal Mother, onde, em poucas sentenças, ela sintetiza o que considero uma crença absolutamente revolucionária. Sinéad afirma que realmente acredita que as mulheres podem fazer com que a política se torne desnecessária. Ela explica que tal empreendimento seria possível através da criação de algum tipo de cooperação espontânea totalmente diferente das idéias de poder vigentes nas estruturas estatais, religiosas e assim por diante. Tal idéia pode até cheirar a anarquia, mas ela não está interessada em anarquia, mas em formas sagradas de relacionamentos que não sigam os padrões hierárquicos vigentes que são fundamentalmente patriarcais. Ela conclui seu breve e introdutório discurso explicando que “o oposto de patriarcado não é matriarcado, mas fraternidade.” E acrescenta “acredito que são as mulheres que vão ter que quebrar os padrões de poder vigentes e encontrar a chave da cooperação.”
Desde a primeira vez que ouvi tal discurso, comecei a me perguntar porque ela condicionou o fim da política às ações das mulheres. Por que seriam as mulheres que teriam que descobrir a chave da cooperação? Ou, em outras palavras, o que haveria de tão especial nas mulheres que permitiria que ela propusesse que elas seriam as responsáveis pela reinvenção do político?
Sinéad O’Connor propôs-me a questão, mas foi através da leitura dos escritos de Jamie Sams que comecei a encontrar as primeiras pistas para a construção de uma provável resposta. No livro entitulado The 13 Original Clan Mothers, Jamie Sams fala sobre a reabilitação do feminino que as mulheres teriam de empreender com o objetivo de reivindicar de volta a sua função de curar e nutrir o outro. A idéia geral de tal proposição é a da liderança através do exemplo, ao invés de através da conquista ou da competição - tão relacionadas ao masculino. Mas diferentemente do que tal idéia pode sugerir, Jamie Sams não acredita que o feminino é apenas um privilégio das mulheres. Mas as mulheres, especialmente aquelas que experimentaram a maternidade, têm a vantagem de entender a idéia do feminino de uma forma mais visceral porque elas aprenderam, através dos seu próprios corpos, a arte da paciência. Elas aprenderam que a tarefa de criar filhos requer tempo, paciência e cuidado. Como resultado de tais práticas, as mulheres intuitivamente sabem que para o presente e o futuro do mundo tudo importa. Elas sabem que para a sobrevivência do planeta a tarefa de preparar uma comida saudável para um filho é tão importante quanto a de assinar acordos de paz ou tratados comerciais.
Então, enquanto escutava Marina Silva falando, eu me dava conta de que finalmente me deparava com um exemplo vivo do que Sinéad O’Connor prenunciava. Após ouvir as primeiras sentenças, eu já sentia que Marina Silva provavelmente é uma das raras pessoas que não apenas fala sobre as suas utopias mas também as pratica. Marina teimosamente acredita que o impossível pode ser feito através da cooperação. Acredita, portanto, que a cooperação não apenas é a chave para a preservação dos recursos genéticos da floresta amazônica, mas é também a chave para a preservação de todos os recursos do planeta. A sua própria história é já um excelente exemplo do milagre da cooperação. Marina só aprendeu a ler quando tinha 16 anos. Apesar disto, aos 36 anos conseguiu ser eleita para o Senado Federal, tornando-se a primeira mulher senadora na história do Brasil. Desde então, e em função da sua luta pela defesa dos direitos dos povos da floresta, ela tornou-se internacionalmente conhecida e já recebeu muitas condecorações internacionais.
Talvez ela não tivesse se tornado a primeira brasileira a conseguir uma cadeira no Senado se não fosse pela morte de Chico Mendes. Se os assassinos de Chico Mendes soubessem da existência de Marina e acreditassem na possibilidade de ela sucedê-lo na política, é possível que eles tivessem pensado duas vezes antes de assassiná-lo. De fato, apesar da sua aparente fragilidade, Marina parece ser ainda mais poderosa do que Chico Mendes. Mas seu poder, como já propus, parece residir principalmente na sua simplicidade e firmeza, qualidades que ela afirma ter aprendido com Chico Mendes. Eles trabalharam juntos no movimento dos seringueiros por mais ou menos quatro anos. Portanto, quando ele foi assassinado em 1988, Marina já havia aprendido muito dos seus ensinamentos politicos.
Marina Silva me impressionou com seus projetos e colocações, mas foi sua habilidade política que mais me impressionou, especialmente a sua forma especial de lidar com o poder, particularmente expressa na sua habilidade de praticar o que diz. Marina é humilde, sábia, apaixonada, firme e esperançosa. Para ela o poder não é um fim nele mesmo, mas o lugar de onde ela pode praticar sua utopia. Neste sentido, ela também me lembra Paulo Freire e seu legado sobre a arte da praxis. Para Paulo Freire, ser revolucionário não é apenas lutar por um mundo mais igualitário e democrático para amanhã. Muito mais do que isto, revolucionário é aquele que já pratica hoje as idéias que ele quer transformar em realidade para todos amanhã. Nessa perspectiva, democracia, respeito e tolerância têm de ser praticados e não apenas discutidos. Noutras palavras, esses valores não podem e nem devem se perder na retórica da transformação do mundo planejada para amanhã. Principalmente porque o mundo de amanhã não é uma garantia para ninguém, especialmente se considerarmos que o que tem sido globalizado é um estilo de exploração/vida que se tem provado absolutamente insustentável. Consciente dos perigos da globalização, Marina está lutando para aprovar uma lei para regular o acesso aos recursos biológicos e culturais do Brasil. Ela propõe que o conhecimento dos povos nativos seja remunerado porque, afirma, grande parte da pesquisa de laboratório começa com a informação obtida através das comunidades locais. Ela explica que a “extorsão” de conhecimento ocorre do seguinte modo: os índios usam plantas que são parte da sua medicina tradicional. Os pesquisadores vão para a floresta, pegam a planta, estudam-na, patenteiam-na e produzem remédios e ganham dinheiro com isto. Nada retorna para a comunidade que produziu a informação original. O objetivo de tal lei, portanto, é pagar tal débito e criar formas sustentáveis de remunerar as populacões nativas e os seus países pelos seus recursos naturais e culturais. Do contrário, a preservação da Amazônia nunca passará da retórica. Assim, se é verdade que todo o planeta precisa da Amazônia, todo o planeta deveria mobilizar-se e oferecer alguma contribuição para preservá-la. Mas só há uma forma de produzir tal mobilização: todos os seres humanos precisam entender que a sustentabilidade social, ambiental e política caminham lado a lado. A sobrevivência do mundo depende da compreensão da necessidade de afirmação da diversidade, seja no mundo das plantas ou no mundo dos homens e das sociedades.
Nenhum indivíduo, raça ou nacionalidade pode ter a pretensão de salvar o mundo sózinho. Não há salvação para apenas uma espécie. Ou salvamos o mundo com a sua diversidade ou ninguém será salvo. Portanto, a responsabilidade de preservação da floresta Amazônica é tanto do povo e governo brasileiros como é também, por exemplo, dos estudantes da Universidade Estadual da Califórnia, Los Angeles. Desta maneira, Marina ensinava sua audiência que apesar da distância geográfica, a vida em Los Angeles está muito mais conectada à vida na floresta Amazônica do que imaginamos. Como uma nativa da floresta e cidadã do mundo, ela sabe muito bem que não há a possibilidade de se salvar a amazônia excluindo os seus habitantes. Ela sabe que o empreendimento de salvar o mundo exige muito mais do que o salvamento desta ou daquela ilha, desta ou daquela espécie em extinção. Ela sabe, afinal, que o que mais ameaça os recursos da floresta amazônica não são os seus habitantes nativos, mas a exploração promovida pelos poderes imperialistas. Se não fosse pelos nativos da Amazônia, a essas alturas provavelmente não haveria mais “recursos nativos”. Esses nativos, como muitos outros nativos de outras regiões do planeta, têm sido sistematicamente eliminados por uma política econômica que despreza tudo que não se assemelhe ao colonizador europeu ou americano. Tudo isto é péssimo porque a sobrevivência dos recursos da floresta amazônica depende muito mais da sobrevivência dos seus habitantes nativos do que do bom funcionamento de cidades como Los Angeles.
Durante a palestra e depois, durante o debate, chamou-me atenção a sua forma atenciosa, firme e delicada de se relacionar com a platéia. Depois, quando a palestra terminou, algumas pessoas se reuniram em torno dela para questões mais específicas e, novamente, ela tratou todas com a mesma atenção e respeito independente das aparências. Agindo assim, ela mostrava que seu projeto de um mundo sustentável não é algo para amanhã, quando as condições apropriadas forem criadas. Sua utopia não é uma desculpa para não se engajar profundamente no presente. Ao contrário, sua utopia já está em construção. Foi exatamente isto que ela eloqüente e pacientemente transmitiu para a sua audiência naquela noite. Algumas semanas após a palestra, enquanto discutia com amigos e colegas a globalização e a necessidade da criação de organizações internacionais para o controle do poder e abusos do capital, referimo-nos à Marina e à sua luta por um mundo sustentável. Eu comentava, especificamente, sobre o impacto que o meu encontro com ela havia produzido sobre a minha compreensão de ativismo político, quando soube que Marina sofre as consequências da contaminação de mercúrio e outros metais pesados. Minha primeira reação foi de raiva: sentia-me meio traída porque queria que ela vivesse para sempre. Queria continuar observando-a na construção da sua utopia. Entretanto, recentemente, lendo um artigo de Diana Jean Schemo para o número de Janeiro/Fevereiro de 1998 da Ms. Magazine, senti-me novamente surpreendida pela compreensão de Marina sobre as limitações do seu corpo. Ela diz: “Eu tenho um espírito forte e um corpo frágil; eu acho que talvez Deus me deu um corpo frágil para que eu não me sentisse onipotente e não esquecesse suas limitações.” Talvez esta seja a razão mesma porque Deus nos deu um planeta com recurso limitados: para que aprendêssemos a valorizá-los; para que precisássemos encontrar formas cooperativas de nos relacionar um com o outro e com o planeta. Depois de tudo, eu já não penso que a idéia de limites é assim tão ruim. A saúde de Marina Silva me levou a pensar na minha própria saúde, nas suas limitações e precariedade. Noutras palavras, saber que nem nós nem nosso planeta temos garantia de eternidade deveria servir como um lembrete de que todos deveríamos valorizar mais a vida e o presente ao invés de imergirmos nesta cultura predatória da busca de lucros fáceis e privilégios individuais. Deveríamos, finalmente, como as mães, nos preocupar também com o futuro dos nossos filhos e netos.
[1] . Uma versão em inglês deste ensaio (Globalization, Women, and the “Trick” of Cooperation: the Example of Marina Silva) foi publicado na Latin American Perspectives Vol. 29 n. 6 - Novembro de 2002.
[2] . Bernadete Beserra, PhD em Antropologia pela University of California, Riverside, é professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará.

3 comentários:

Lizias disse...

Seu texto me faz pensar o quanto de atributos femininos, gestado por tanto tempo, pode, a exemplo da maternagem, desdodrar-se em cuidados politico-sociais como o exemplo de Marina.
Segundo Bourdieu:
Permanece o fato de que não se pode esperar de uma simples sócio-análise, ainda que coletiva, e de uma tomada de consciência generalizada, uma conversão durável das disposições mentais e uma transformação real das estruturas sociais, na medida em que as mulheres continuem a ocupar, na produção e da reprodução do capital simbólico, a posição diminuída que é o verdadeiro fundamento da inferioridade do status que lhes atribui o sistema simbólico e, através dele, toda a organização social. Tudo leva a pensar com efeito, que a libertação da mulher tem por condição prévia um verdadeiro controle coletivo dos mecanismos sociais de dominação que impedem de conceber a cultura, isto é, a ascese e a sublimação nas e pelas quais a humanidade se institui, senão como uma relação social de distinção afirmada contra uma natureza que não é outra coisa senão o destino naturalizado dos grupos dominados, mulheres, pobres, colonizados, etnias estigmatizadas, etc. (Bourdieu).



Provavelmente, a despeito de qualquer desconstrução feminino-masculino/ homem-mulher, a mulher tenha muito a oferecer através do longo habitus de sua maternagem, uma sabedoria de cuidado político-social que o exemplo de Marina nos faz refletir.

Muito bom o texto, me ajuda muito nas minhas reflexoes e pesquisa sobre genero.

sergio lizias

Bernadete Beserra disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Bernadete Beserra disse...

(Comentário de Circe Vidigal)

UMA UTOPIA EM CONSTRUÇÃO

Prezada Bernadete

Seu texto é maravilhoso e expressa um sentimento e compreensão dos fatos com os quais, como mãe e antropóloga, comungo igualmente.

Selecionei alguns trechos que achei mais tocantes ( ou importantes) mas, realmente, o que senti desde o início veio se confirmar quando você diz que o projeto de Marina Silva é uma UTOPIA EM CONSTRUÇÃO.
Nada mais apropriado que esse entendimento, pois as pessoas mais desavisadas ou descrentes dirão logo: - Isso é impossível ! ou Mulher sonhadora! etc...etc...etc...

Sonhadora, por que não? Sonhar com um mundo melhor e propor caminhos e soluções não é coisa de maluco ou de ignorante - como muitos dirão - mas de quem sabe que, sem as utopias o mundo ainda estaria na Idade da Pedra ! E, se as utopias se desencaminharam pelos vias civilizatórios, muitas se realizaram e temos hoje este mundo tão controvertido, com uma ciência que cura e outra que espolia e expropria o conhecimento nativo. Carros maravilhosos e velozes, indústrias sofisticadíssimas e um ar poluído que vai matando a nós e ao planeta e poderia seguir indefinidamente falando dos benefícios e dos danos do processo civilizatório.

Sonhar com um mundo diferente desse, tem muito de Anarquismo, sim, Bernardete. Não do anarquismo que as pessoas imaginam, mas do desmanche e reconstrução de tudo que aí está, para uma sociedade justa e igualitária, sem poder político, sem Estado, onde os direitos de uns terminem onde se iniciam os dos outros e todos vivendo fraternalmente, em estreita colaboração.

E as mães e os índios sabem muito bem como fazê-lo. Por quê não o mundo? Pensar nisso não significa que será agora, nesse ano, ou no próximo. Pensar nisso significa trabalhar como as formigas para que um dia isso possa se realizar . E é um trabalho duro, de convencimento e modificação nas famílias, nas escolas, na política, enquanto estas forem as orientadoras da vida social humana.

Não tenho a sua habilidade e competência para escrever, Bernadete, mas acho que consegui fazer meu comentário a seu belíssimo texto, enfatizando que tudo isso pode ser realidade um dia se considerarmos os "sonhos" ( como muitos dirão) de Marina, como uma Utopia em Construção

Grande abraço, prazer em conhecê-la

Circe Vidigal